“Cell, eu estive por aí”, diz Rubén Blades, com precisão. Um dos músicos latinos mais influentes do último meio século, o cantor e compositor panamenho, de 77 anos, tem sido uma força definidora na salsa, arrecadando 25 prêmios Grammy – 13 latinos, 12 mainstream – e recebendo elogios de uma nova geração, incluindo Rosalía e Unhealthy Bunny.
Blades transitou entre música, direito, política e cinema como se todos fizessem parte da mesma conversa. Ele é formado em Direito por Harvard, fez uma candidatura presidencial no Panamá – foi também ministro do Turismo do país de 2004 a 2009 – e teve papéis no cinema ao lado de Jack Nicholson, Brad Pitt e Denzel Washington, todos eles resolvidos por conta própria. “Um empresário enlouqueceria”, ele ri, seus olhos cinzentos enrugando em uma videochamada de sua casa em Nova York, antes de um present que fará em Londres.
Mesmo no início, ele não estava seguindo o roteiro normal. Na década de 1970, quando a salsa se apoiava fortemente em canções de amor, Blades escrevia sobre crime, violência e rua. Ele remonta à sua infância em San Felipe, o então negligenciado coração da Cidade do Panamá, onde period filho de um detetive colombiano e de uma atriz e cantora cubana. Ouvir Mack the Knife da The Threepenny Opera foi particularmente influente. “Period sobre um cara durão”, diz ele, “alguém que poderia ser de uma de nossas gangues: Diente de Oro, Zapatas Negras. Eu mantive essas ideias na cabeça.”
Depois que o líder militar do Panamá, Manuel Noriega, acusou falsamente o pai de Blades de espionar para a CIA, a família mudou-se para os EUA e Blades encontrou trabalho na sala de correspondência da Fania Data em Nova York, a gravadora que impulsionou a period de ouro da salsa. Lá ele conheceu Willie Colón e juntos remodelaram o gênero, misturando comentários sociais com ritmos contagiantes construídos para a dança.
A Nova York dos anos 70 contribuiu para sua escrita. “A Rua 42 period difícil”, diz ele, cheia de ladrões, cafetões e profissionais do sexo – os mesmos arquétipos que ele viu crescer na Cidade do Panamá: “Uma cidade portuária, admitindo pessoas, coisas, ideias, entrando e saindo. Havia cimento, sujeira e medo”. De tudo que veio Pedro Navajauma vinheta de um crime urbano, hoje uma das canções mais famosas da música latina.
Blades credita a veia literária de sua música à sua avó Emma, uma professora, que o ensinou a ler quando ele tinha quatro anos. “Ela me incentivou a me educar”, diz Blades, cujo álbum Agua de Luna, de 1987, homenageia as histórias de seu amigo Gabriel García Márquez. “Ela me dizia: ‘Não somos pobres. Simplesmente não temos dinheiro. Você pode ter dinheiro, mas ainda assim ser pobre se não souber de nada’”.
Esse ceticismo permeia sua política, que não se alinha perfeitamente com nenhuma ideologia. “Fui atingido pela esquerda, pela direita… pelos dois lados”, ele dá de ombros. Quando Blades concorreu à presidência do Panamá em 1994 (ficando em terceiro lugar), alguns o consideraram um cantor fora de seu alcance. Ele destaca sua formação jurídica, incluindo seu diploma em Harvard – a coisa mais difícil que já fez. “Muitas vezes tive vontade de ir embora”, diz ele, “mas não desisto. Também queria que minha mãe me visse me formar”.
Ele desconfia da política de celebridades, mas reconhece seu alcance. Ele menciona Unhealthy Bunny, que assistia aos reveals de Blades com seus pais enquanto crescia, e para quem Blades fez uma homenagem convidado especial aparição num concerto em Porto Rico em 2025. A influência não é suficiente: “Tenho mais credibilidade do que 85% dos políticos do meu país; neste momento, Unhealthy Bunny poderia atrair mais jovens para votar do que todos os partidos políticos em Porto Rico. Mas nem todos os artistas estão qualificados para entrar na política – você precisa de educação. Você precisa participar. Você precisa de pessoas sérias ao seu redor.”
A sua própria seriedade é evidente quando fala com precisão jurídica sobre imigração e poder estatal. Os países têm o direito de estabelecer leis de imigração, diz ele. “Quando viermos a Londres para jogar, teremos vistos.” Mas deportar alguém que chegou quando criança e construiu uma vida nos EUA é, para ele, indefensável, e ele descreve os assassinatos dos manifestantes Renee Good e Alex Pretti por agentes do ICE em Minneapolis como “assassinato. A imigração é usada como desculpa para justificar o injustificável”. Donald Trump, por sua vez, é descrito como um “charlatão narcisista que quer destruir a democracia e se tornar um imperador como em Mongo” – o planeta desonesto em Flash Gordon. “Mas não creio que os Estados Unidos vão cair no fascismo whole. O poder judicial ainda é forte. O exército dos EUA mantém a sua independência, o que mantém as coisas sob controle.” Uma pausa. “Como latino-americano, vi o surgimento de ditaduras militares.”
Atuar é sua outra habilidade: Blades já apareceu em mais de 40 filmes, mas nunca teve treinamento formal. “Ler ajuda”, diz ele. “Isso permite que você think about situações.” Seu primeiro papel foi como cantor que virou boxeador no filme B de 1982, The Final Battle, produzido por Fania, ao lado de Colón. Ele passou para filmes como The Two Jakes, estrelado e dirigido por Jack Nicholson – “Eu adorei, os críticos não” – e uma longa temporada no drama de TV Worry the Strolling Lifeless. Ele está feliz, diz ele, pela conclusão da série; ele começou a sentir que estava telefonando para seu personagem, um agente secreto salvadorenho que virou barbeiro e virou assassino de zumbis. Seu próximo filme é Campeón Gabacho, de Jonás Cuarón, história sobre um imigrante mexicano, que ganhou o prêmio do público no competition SXSW de 2026. Ele menciona, de passagem, que adoraria trabalhar com Mark Rylance.
Ele então sorri ao me contar que Denzel Washington uma vez o fez dançar em um programa de TV – um desafio para uma lenda da salsa que insiste que muitos músicos latinos não dançam bem. “Mas depois que eu tomo alguns drinks…” Ele balança os ombros.
Para ele, o apelo da salsa é algo básico. “Neste mundo alienante, a salsa tem uma vantagem sobre outras formas musicais: o contato. É preciso tocar outra pessoa. É preciso trabalhar em conjunto.” Ele sorri. “Think about isso.”










