Em 1986, quando o México se tornou o primeiro país a sediar a Copa do Mundo FIFA pela segunda vez, o ator e diretor Diego Luna tinha apenas 6 anos. No ano anterior, sua cidade natal, a Cidade do México, havia sido devastada por um forte terremoto. O fato de a Copa do Mundo ter acontecido em uma nação que se recuperava de tal destruição parecia um milagre para a jovem Luna.
“Parecia que isso não iria acontecer. Period impossível dada a magnitude do desastre”, recorda Luna, agora com 46 anos, em espanhol durante uma recente entrevista em vídeo. “E então, quando isso aconteceu, pudemos testemunhar o bálsamo que foi para o povo da Cidade do México sediar a cerimônia de abertura, receber tantas pessoas de todo o mundo e receber tamanha manifestação de afeto.”
“O México tinha até uma música que dizia: ‘Por enquanto, pelo menos, temos o Troféu da Amizade’. Infelizmente, esse foi o único troféu que ganhamos. E o único troféu que já ganhamos no futebol”, acrescenta Luna com um sorriso malicioso.
Agora, no filme de humor ácido de Gabriel Ripstein, “Mexico 86”, lançado na Netflix a partir de sexta-feira, Luna interpreta um homem fictício em uma história parcialmente verdadeira sobre os meandros de como o país derrotou adversários mais poderosos e superou o caos da época para sediar o evento com sucesso.
A paixão de Luna pelo futebol, diz ele, nasceu durante aquela fatídica Copa do Mundo em casa, onde a Argentina conquistou seu segundo título pela “mão” de Diego Maradona.
“Meu tio me levou para ver um jogo. Ele ganhou dois ingressos em um sorteio no trabalho”, diz Luna. “Naquela época, as pessoas que assistiam à Copa do Mundo eram as mesmas que iam regularmente aos jogos de futebol.”
Luna teme que os preços exorbitantes dos ingressos para a próxima Copa do Mundo (sediada no México, nos EUA e no Canadá) impeçam a participação dos fãs de futebol todos os dias. “Não sei quem terá condições de pagar esses ingressos, mas é óbvio que quem vai assistir futebol todo fim de semana no México não é mais convidado para a Copa do Mundo”, afirma. “Eles terão que assistir em telas em praças públicas.”
A alegação de que a Copa do Mundo deste ano (que começa em 11 de junho) está sendo organizada entre três países não passa de uma cortina de fumaça, acredita Luna.
“Na realidade, os Estados Unidos estão organizando isso, enquanto o México e o Canadá receberam apenas 13 partidas cada”, explica ele. “No entanto, os Estados Unidos – um país que atualmente luta com o resto do mundo – acolhem mais de 70. É um desafio compreender como podem aspirar a acolher um torneio que é fundamentalmente sobre justiça, equidade e comunhão de diversas culturas.”
Infelizmente, a política e o futebol têm estado frequentemente interligados. O personagem de Luna no satírico “México 86”, Martín de la Torre, é um humilde funcionário público que consegue chegar a uma posição de influência para ter os ouvidos de homens mais poderosos como Emilio Azcárraga da Televisa (interpretado por Daniel Giménez Cacho). Para sair vitorioso em sua busca para levar a Copa do Mundo ao México, De la Torre se rebaixa e apunhala pelas costas descaradamente.
“Meu personagem é fictício justamente porque busca resumir as ações de muitos burocratas que serviram a esta vasta estrutura conhecida como Estado, ou PRI [party]”, diz Luna. “E como, na sua ânsia de agradar ao Estado, de apaziguar esta máquina, estão dispostos a sacrificar tudo, até a sua própria moralidade e ética profissional. Esses atos de traição, em última análise, traçam o curso da própria queda do sistema.”
O amor de Luna pelo esporte também vem de seu falecido pai e de sua predileção de longa information pelo time Pumas da Liga MX. “Meu pai trabalhou na UNAM, e a universidade e sua equipe, o Pumas, têm uma relação muito próxima”, afirma. “O estádio fica emblem ali, bem próximo da zona cultural. É um projeto arquitetônico lindo e faz parte do campus.”
Torcer apaixonadamente pelo Pumas também faz parte de sua amizade com o também ator Gael García Bernal desde a infância. “Fui com o Gael assistir à partida remaining da temporada 1990-91, onde o Pumas se sagrou campeão”, lembra. “Lá estávamos nós dois, de 11 e 12 anos, vendo nosso time triunfar e vencer a remaining contra o odiado América.”
Los Charolastras, seus personagens em “Y Tu Mamá También”, de Alfonso Cuarón, também eram torcedores do Pumas. No filme “Rudo y Cursi”, de 2008, os atores interpretaram irmãos rivais que sonhavam em jogar futebol profissionalmente.
“’Rudo y Cursi’ nos aproximou da experiência de ser um jogador mexicano de uma forma profundamente cativante”, explica. “Tivemos a oportunidade de estar perto de muitos jogadores para entender como foi sua jornada.”
Entusiasta do futebol, Luna já disputou diversas posições – todas bastante ruins, confessa. Mesmo assim, ele sempre valorizou a alegria de jogar por jogar.
“O futebol sempre fez parte da minha vida e joguei até recentemente”, diz Luna. “Não jogo mais porque meus joelhos e tornozelos simplesmente não aguentam. Minha idade não permite mais, mas ainda assisto bastante.”
O que Luna acha mais bonito no esporte é a esperança embutida de que, por mais imponente que seja seu oponente, se a sorte estiver do seu lado, a vitória será possível. E talvez isso seja apenas uma ilusão, mas é o suficiente para inspirar profissionais e amadores.
“Quando você está em campo, não importa o tamanho da sua barriga ou a intensidade da ressaca que você está sentindo na noite anterior; quando a bola vem em sua direção, por uma fração de segundo você diz a si mesmo: ‘Acho que desta vez vou realmente acertar. Vou colocá-la ali e marcar.’ Mas aí a realidade se instala e a bola acaba batendo mais em você do que você bate na bola”, diz rindo.
Que o futebol prospere com a genialidade e a habilidade física dos seres humanos, o que também significa que a possibilidade de fracasso o torna profundamente dramático, fascina Luna.
“Em 1986, Hugo Sánchez perdeu um pênalti”, lembra Luna. “Ele period o melhor atacante do mundo na época. Não havia homem mais intimamente ligado a marcar um gol do que ele. E ainda assim, em seu próprio país, ele perdeu um pênalti decisivo. Essa sensação de drama causada pelo erro humano no futebol é absolutamente emocionante.”
Luna acredita que embora as histórias sobre o que cerca o esporte sejam convincentes, não existem bons filmes que enfoquem a ação em campo. “O que acontece lá já é um espetáculo perfeito”, diz ele. “É composto por 90 minutos, divididos por um intervalo na casa dos 45 minutos que permite especulações. Tem dois atos, e o segundo é sempre melhor que o primeiro porque é definitivo. Não há como voltar atrás. O remaining é inevitável.”
Há também uma qualidade igualitária no futebol que falta em outros esportes. Pode ser jogado sem equipamento e com bola improvisada, desde que tenha outras pessoas com quem jogar.
“Eu jogava mesmo sem bola, usando uma garrafa de Frutsi. Enchevamos com areia para dar um pouco de peso e isso servia como nossa bola”, conta Luna. “Ou há momentos em que você se pega jogando mesmo sem bola, fazendo malabarismos com uma bola imaginária, como Maradona costumava fazer.”
O futebol, acredita Luna, representa uma afronta à mentalidade individualista que assola o mundo de hoje porque, por natureza, deve acontecer em comunidade.
“São necessárias no mínimo duas pessoas; e quanto mais jogadores houver de cada lado, mais emocionante e divertido se torna”, diz ele. “Enquanto defendermos a capacidade de agir coletivamente, de existir em comunidade, acredito que o futebol perdurará.”
Esse pensamento lembra Luna de um dos outros amores de sua vida.
“Se você pensar bem, o futebol parece cinema”, acrescenta. “Para jogar é preciso fazer em equipe, e o cinema não é cinema se não for visto em comunidade, se não for compartilhado.”











