Rotas de Colisão no MCU: A Escala Cósmica de ‘As Marvels’ e a Realidade Nua e Crua do Homem-Aranha
Quem acompanha o universo Marvel sabe que a máquina não para. Com o trailer de As Marvels rodando pelas redes, a curiosidade bateu forte tanto na galera das antigas quanto em quem tá caindo de paraquedas no MCU agora. Marcado para estrear em 9 de novembro, o longa distribuído pela Walt Disney é aquela continuação direta do filme da Capitã Marvel de 2019 — que, convenhamos, fez um barulho absurdo na época e faturou a bagatela de 1,1 bilhão de dólares pelo mundo. Dessa vez, a brincadeira custou cerca de 220 milhões de dólares para contar uma aventura com proporções épicas, onde as coisas saem totalmente do eixo.
A trama foca em Carol Danvers (Brie Larson), que finalmente se livrou do domínio dos Kree, mas acabou deparando com um universo completamente desestabilizado. O enredo ganha tração quando ela esbarra num buraco de minhoca cabuloso ligado a um revolucionário Kree. O grande problema logístico é que os poderes dela dão uma espécie de curto-circuito e se entrelaçam com os de Kamala Khan (a Ms. Marvel de Jersey City, vivida pela ótima Iman Vellani) e da Monica Rambeau (Teyonah Parris), sobrinha distante da Carol que agora trampa como astronauta na estação espacial S.A.B.E.R.
O resultado prático disso, como a gente viu no gancho deixado pela série da Ms. Marvel, é que toda vez que uma delas usa suas habilidades, rola uma troca de lugar instantânea. As Marvels foca exatamente nesse trio improvável tendo que engolir o orgulho e trabalhar junto para entender essa zica cósmica e, por tabela, salvar o universo. A direção de tudo isso ficou nas mãos da Nia DaCosta (de Little Woods e A Lenda de Candyman), com produção do Kevin Feige e roteiro creditado a Megan McDonnell, Gene Colan e Roy Thomas.
E, claro, o elenco puxa a velha guarda de volta. Samuel L. Jackson veste o tapa-olho do Nick Fury de novo — o cara é basicamente uma instituição do MCU, presente desde aquela cena pós-créditos clássica do primeiro Homem de Ferro em 2008. Tem sangue novo na área também fazendo sua estreia na Marvel, com Park Seo-joon e Zawe Ashton, além do retorno do núcleo maravilhoso da Kamala, com Gary Lewis, Zenobia Shroff, Mohan Kapur e Saagar Shaikh completando a ficha técnica do cast.
O Outro Lado da Moeda: A Solidão Tecnológica de Peter Parker
Mas enquanto a escala do MCU explode no espaço profundo com heroínas trocando de lugar, na Terra a dinâmica está tomando um rumo deliciosamente mais pé no chão. A dominância contínua do cinema de super-herói acabou tornando as histórias de origem quase obsoletas, especialmente para quem já teve múltiplas encarnações na tela grande. O Homem-Aranha já está na sua quarta iteração live-action (isso se a gente contar aquele Homem-Aranha meio perdido de 1977). Então, quando ele entrou de vez pro MCU em Capitão América: Guerra Civil (2016), a Marvel sacou que ninguém precisava ver o tio Ben morrer de novo e cortou a redundância.
O Peter Parker do Tom Holland foi introduzido em Guerra Civil via Tony Stark, o que fez total sentido pra um filme já lotado de Vingadores e rendeu uma base super ágil pra De Volta ao Lar. Mas dez anos depois, as falhas na fundação desse Aranha ficaram impossíveis de ignorar. Ele não conseguia se desvencilhar do status de “acessório” do Homem de Ferro. Sem Volta Para Casa fez aquele limpa maravilhoso, arrancando dele qualquer muleta bilionária, e agora o quarto filme — chamado no roteiro de Brand New Day — vai ainda mais fundo para consertar os tropeços do passado.
As três primeiras páginas do roteiro liberadas pela Entertainment Weekly, junto com as anotações bem pontuais do diretor Destin Daniel Cretton, do diretor de fotografia Brett Pawlak e do próprio Tom Holland, deixam claro a nova realidade. Pela primeira vez, Peter está “completamente sozinho”, tendo apenas uma inteligência artificial chamada E.V. para trocar ideia no dia a dia. Pode até cheirar a um resquício da mentoria do Stark, mas o visual e a atitude gritam exatamente o oposto.
Aquele contato bizarro com os Peters de universos paralelos mexeu profundamente com ele. O novo traje, segundo as notas do próprio Cretton, é pura “costura, rugas e tecido real”. É o visual tátil, feito à mão, pedindo passagem. Peter foi empurrado para uma nova era de autossuficiência. Ele ainda respira tecnologia mais do que qualquer outro Aranha dos cinemas, claro, mas acabou a esmola das Indústrias Stark. O moleque construiu um “fabricador” — que a direção descreve como uma impressora 3D anabolizada —, mas a instrução visual é muito clara: precisa parecer algo construído por um “gênio mirim com falta de grana”.
Ver o Peter voltar às raízes e ter que suar a camisa pra montar o próprio equipamento nos traz de volta aquele peso do garoto prodígio que a franquia tinha deixado adormecido. É o retorno genuíno do herói azarão; o cara que se vira com inteligência e criatividade para sobreviver nas ruas, e do qual a gente só teve um vislumbre super rápido lá em Guerra Civil. Além disso, o roteiro joga no ar que “algo está mudando” dentro dele, sugerindo uma metamorfose que promete levar Brand New Day numa direção no mínimo selvagem.
No fim das contas, entre os mistérios e anomalias de As Marvels e a solidão inventiva do novo Homem-Aranha, o universo Marvel segue em frente fazendo seus reajustes. E ver as fundações do Peter Parker sendo silenciosamente retconnadas mais uma vez, dessa vez para algo tão cru, visceral e focado no intelecto do personagem, é uma coisa simplesmente linda de se acompanhar.




