A capital sul-coreana deixou de ser um mero cenário para se transformar no coração pulsante de narrativas globais. Há pouco mais de uma década, Seul aparecia em produções estrangeiras apenas como um pano de fundo passageiro, a exemplo de sua breve participação na franquia “Vingadores”. O cenário atual, no entanto, é bem diferente. A Onda Coreana, ou Hallyu, impulsionada por eventos globais como a transmissão do show de retorno do BTS em Gwanghwamun pela Netflix, entrou em sua terceira fase. O Hallyu 1.0 foi movido por um seleto grupo de celebridades. Na sequência, a versão 2.0 explorou a dolorosa história moderna do país, da colonização à divisão territorial, oferecendo conforto a audiências imigrantes com obras como “Minari” e “Pachinko”. Agora, o Hallyu 3.0 ganha forma. Produtores do mundo inteiro estão criando conteúdos que mergulham na identidade espacial e na atmosfera única da Coreia do Sul.
O Novo Destino dos Estrangeiros Projetos recentes dos Estados Unidos, Brasil e Índia colocam Seul como elemento central de suas histórias. Esse movimento marca um forte contraste com o passado, quando o próprio cinema coreano buscava inspiração no exterior para evocar sentimentos, indo a Paris para retratar o romance ou a Los Angeles para ilustrar o sonho americano. Hoje, os protagonistas estrangeiros viajam para a Coreia para crescer, arriscar e encontrar o amor. A terceira temporada da série americana “Com Carinho, Kitty”, lançada em 2 de abril na Netflix, acompanha a vida escolar da protagonista no país. Na mesma plataforma, o reality show “Meu Namorado Coreano” mostra mulheres brasileiras cruzando o oceano para conhecer os homens com quem se conectaram online.
Curando Feridas em Cheonggyecheon Um dos maiores sucessos recentes dessa tendência de internacionalização é “Made in Korea”. O filme indiano de comédia dramática, financiado inteiramente no exterior, liderou a parada global de produções em língua não inglesa da Netflix por duas semanas. A trama se desenrola em Seul e traz Shenba, interpretada por Priyanka Mohan. A jovem se muda para trabalhar como cuidadora após ser enganada financeiramente pelo namorado. Um dos momentos mais cruciais acontece no riacho Cheonggyecheon, onde ela desabafa sobre suas preocupações com uma idosa coreana. O encontro culmina na abertura de um restaurante pelas duas. O diretor Ra Karthik explica que o Cheonggyecheon é um lugar de restauração, já que as águas antes desaparecidas retornaram ao local. É o reflexo exato da jornada da protagonista, que supera feridas do passado e reconstrói sua vida bem longe de casa.
Por Que Seul e Não Nova York ou Tóquio? O sucesso estrondoso de conteúdos originais sul-coreanos, puxado pelo fenômeno “Round 6”, atiçou a curiosidade global sobre como é a verdadeira vida cotidiana no país. Mas a escolha por Seul como o novo grande set de filmagens vai além do hype. O diretor de “Made in Korea” relata que a influência da cultura coreana cresceu absurdamente na Índia nos últimos dez anos. Em sua cidade natal, Chennai, existem mais de 20 restaurantes coreanos, e sua própria esposa prepara kimchi em casa. Essa familiaridade emocional o convenceu de que ambientar o crescimento da protagonista em Seul ressoaria com o público de forma muito mais autêntica do que em cidades já saturadas. Grace Kao, professora de sociologia da Universidade de Yale, tem uma visão semelhante. Durante sua recente passagem pelo país, ela observou que Nova York parece familiar demais aos espectadores, enquanto Tóquio ainda soa apenas exótica para o público ocidental. Faltam a elas o grau de empatia cultural que Seul consegue gerar naturalmente.
O Apelo do Cotidiano nos Doramas Locais É justamente esse frescor da vida urbana sul-coreana que continua mantendo as produções originais do país em alta. O dorama “Primeira Vez Amor” exemplifica bem o poder dessas narrativas focadas na juventude, na amizade e nas complexidades do amadurecimento. A trama nos apresenta Yoon Tae-oh (Ji Soo), um jovem que ganha uma casa do avô ao completar vinte anos. A intenção do presente era forçar o início de sua vida adulta de forma independente, mas Tae-oh logo descobre que morar sozinho é um desafio imenso. A situação toma um rumo inesperado quando seu círculo de amigos mais próximos, enfrentando problemas com os pais e a transição para a vida adulta, é forçado a sair de casa. Eles se mudam para o espaço de Tae-oh, passando a dividir as responsabilidades diárias e as angústias da juventude.
Romance e Amizade Sob o Mesmo Teto Conviver intimamente transforma a dinâmica do grupo. Em uma noite de bebedeira e comida, a jovem Han Song-i (Jung Chae-yeon) deixa escapar que está guardando o segredo de uma nova paixão, desmaiando logo em seguida. O enredo se desenrola a partir daí com uma leveza cativante, mapeando os sentimentos ocultos de cada amigo e abrindo espaço para um romance delicado. Diferente do formato tradicional da maioria dos k-dramas, a produção apostou em duas temporadas. Cada fase oferece oito episódios com cerca de cinquenta minutos de duração. Disponível na Netflix, o elenco também conta com talentos de peso como Kang Tae-oh, Jung Jin-young, Hong Ji-yoon e Choi Ri. Projetos como esse provam que, seja através das lentes de cineastas estrangeiros ou de roteiristas locais, as esquinas, as casas e as relações construídas em Seul se tornaram a linguagem universal do entretenimento atual.




