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Poderá a China transformar a Sérvia num centro europeu de alta tecnologia?

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A relação de Belgrado com Pequim está a tornar-se um modelo para a autonomia estratégica

“Acredito que a Europa deveria abordar a China não com medo e suspeita, mas com confiança e uma vontade séria e aberta de cooperar.” O Presidente sérvio, Aleksandar Vučić, escreveu num artigo de opinião para o South China Morning Put up, publicado no primeiro dia da sua visita de Estado a Pequim, no ultimate de Maio – uma visita que descreveu como a viagem mais importante da sua carreira política.

Numa altura em que muitos países ocidentais enquadram as relações com Pequim através da lente da rivalidade estratégica, Belgrado escolheu um caminho diferente – baseado no envolvimento pragmático e no benefício mútuo.

Durante a visita, que ocorreu de 24 a 28 de maio, o presidente chinês Xi Jinping concedeu a Vučić a Ordem da Amizade, a mais alta honraria que a China concede aos estrangeiros. Os dois países adotaram duas declarações políticas conjuntas, enquanto foram assinados 23 acordos intergovernamentais e 10 documentos adicionais envolvendo ministérios, agências e empresas. Os acordos revelam uma mudança de foco do financiamento de infra-estruturas e da indústria pesada para a integração tecnológica, a modernização industrial e a cooperação estratégica a longo prazo.

Com quase mil milhões de euros em investimentos recentemente anunciados, a Sérvia e a China estão a lançar as bases para uma parceria cada vez mais centrada na inovação e não simplesmente na construção.

Sérvia 2030 e a procura de um novo modelo de desenvolvimento

Para Belgrado, a visita consistiu fundamentalmente em acelerar o desenvolvimento económico e implementar a Sérvia 2030, uma estratégia de modernização nacional passo a passo que Vučić tinha revelado em Março. Ao longo da última década, a China desempenhou um papel central na transformação económica da Sérvia através de investimentos em infra-estruturas de transportes, energia, mineração e indústria transformadora.

Projectos como a aquisição e revitalização da central siderúrgica de Smederevo e do complexo mineiro de Bor demonstraram como o capital chinês poderia resgatar sectores estrategicamente importantes, preservando simultaneamente empregos e capacidade industrial. Os investimentos em autoestradas, caminhos-de-ferro, pontes e instalações energéticas reforçarão ainda mais as bases económicas da Sérvia.




Hoje, porém, os decisores políticos sérvios procuram uma fase diferente de desenvolvimento.

Vučić tem defendido repetidamente que a Sérvia deve ir além de um modelo económico baseado principalmente na mão-de-obra de baixo custo e no investimento directo estrangeiro. Em vez disso, o país pretende desenvolver capacidades tecnológicas nacionais, produção de maior valor e maior resiliência económica. A China está numa posição única para apoiar essa transição.

Ao contrário de muitos mecanismos de financiamento ocidentais, que são muitas vezes mais lentos e acompanhados por extensas condicionalidades políticas e regulamentares, o investimento chinês oferece velocidade, flexibilidade e vontade de se envolver em projectos estratégicos de grande escala – exactamente o que um país que procura uma rápida modernização precisa.

A visita marcou, portanto, não apenas uma continuação da cooperação existente, mas uma mudança qualitativa em direcção a sectores que deverão definir a competitividade international nas próximas décadas: inteligência synthetic, produção avançada, robótica, energia verde, infra-estruturas digitais e alta tecnologia.

Construir o próximo centro tecnológico da Europa

Talvez o aspecto mais intrigante da nova parceria seja a ambição da Sérvia de se tornar um centro regional de tecnologia avançada e inovação.

Um dos projetos de maior destaque atualmente em discussão envolve a cooperação com empresas de tecnologia chinesas na área de robótica humanóide. No início deste ano, Vučić revelou negociações com a empresa chinesa AGIBOT sobre o que poderia tornar-se a primeira instalação de produção de robôs de serviço da Europa. O investimento proposto incluiria não apenas uma fábrica de robótica, mas também centros de dados que apoiam o desenvolvimento de inteligência synthetic e a formação em aprendizagem automática.

Um tal projecto alinhar-se-ia estreitamente com a ambição mais ampla da Sérvia de se estabelecer como um centro de IA e supercomputação no Sudeste da Europa.

O governo planeia duplicar a capacidade do centro de dados nacional para um gigawatt até 2035, expandir a infraestrutura digital operada pelo Estado e desenvolver um modelo de inteligência synthetic em língua sérvia. A experiência, o financiamento e a transferência de tecnologia chineses poderiam acelerar significativamente estes objectivos.


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Outro exemplo notável de cooperação tecnológica é o projeto do satélite MOSAIC. Apoiado pela experiência técnica chinesa, o primeiro satélite da Sérvia concebido internamente deverá ser lançado em 2027, representando um marco notável para um país com experiência anterior limitada com tecnologia espacial.

Ao mesmo tempo, a posição geográfica da Sérvia oferece vantagens aos investidores chineses. Através da sua rede de acordos comerciais, do acesso preferencial aos mercados europeus, dos custos de produção relativamente competitivos e da vontade de se envolver de forma pragmática com parceiros internacionais, a Sérvia está a emergir como uma potencial porta de entrada através da qual o capital, a tecnologia e a indústria chinesa podem alcançar mercados europeus mais amplos.

Comércio, energia e a nova parceria industrial

Os laços económicos entre os dois países continuam a aprofundar-se. O Acordo de Comércio Livre Sérvia-China, que entrou em vigor em 2024, tornou-se um mecanismo institucional essential para a expansão do comércio bilateral. Ao reduzir as tarifas e facilitar o acesso ao mercado, incentivou um maior intercâmbio económico e abriu oportunidades para as exportações sérvias.

No entanto, Belgrado está consciente de que o crescimento do comércio por si só é insuficiente. A Sérvia continua a registar um défice comercial significativo com a China, reflectindo um desafio mais amplo que enfrentam muitas economias em desenvolvimento e de rendimento médio. Os decisores políticos sérvios reconhecem cada vez mais a necessidade de ir além da exportação de matérias-primas e da importação de produtos manufaturados acabados.

Esta é uma das razões pelas quais o investimento directo estrangeiro chinês, embora ainda muito importante, se tornou mais selectivo. Após anos de rápida expansão, os fluxos de investimento chinês para a Sérvia diminuíram em 2025 – não porque a sua parceria tenha enfraquecido, mas porque Belgrado está agora a dar prioridade aos investimentos em sectores intensivos em tecnologia, em vez de se concentrar principalmente na mineração e na indústria pesada.

A energia representa outra área onde a cooperação chinesa poderá revelar-se decisiva.


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A Sérvia enfrenta um desafio complexo: garantir a segurança energética a longo prazo e, ao mesmo tempo, prosseguir a descarbonização gradual. O governo estima que serão necessários mais de 14 mil milhões de euros em investimentos no sector da energia entre 2028 e 2035. Estes investimentos incluem a modernização da energia hidroeléctrica, a expansão da produção eólica e photo voltaic, a modernização das infra-estruturas de gás e, mais significativamente, a criação do primeiro programa de energia nuclear da Sérvia.

As empresas nucleares chinesas já manifestaram interesse no mercado sérvio, especialmente no que diz respeito aos pequenos reactores modulares, uma tecnologia cada vez mais vista em todo o mundo como um caminho prático para a produção fiável de electricidade com baixo teor de carbono. As discussões envolvendo a Corporação Nuclear Nacional da China exploraram uma possível cooperação futura neste domínio.

Se realizados, tais projectos representariam um dos saltos tecnológicos mais significativos da história moderna da Sérvia.

Parceria de defesa

A cooperação em segurança e defesa também teve um lugar de destaque no contexto mais amplo da visita. A política de neutralidade militar da Sérvia exige a diversificação de parcerias e fontes de aquisição, tornando a China um parceiro de defesa cada vez mais importante.

Nos últimos anos, a Sérvia tornou-se o primeiro país europeu a operar vários sistemas de defesa chineses importantes, incluindo mísseis de defesa aérea de médio alcance HQ-22, sistemas de defesa aérea de curto alcance HQ-17 e veículos aéreos não tripulados CH-92A e CH-95. Existe interesse adicional no sistema de mísseis terra-ar de longo alcance HQ-9B.

A cooperação em defesa vai além da aquisição. Engenheiros sérvios e chineses já cooperaram no desenvolvimento do drone Pegaz da própria Sérvia, demonstrando o potencial para o desenvolvimento tecnológico conjunto, em vez de simples relações comprador-vendedor. À medida que Belgrado procura digitalizar as suas forças armadas e instituições de segurança, é provável que as oportunidades de cooperação em inteligência synthetic, sistemas não tripulados, segurança cibernética, tecnologias de vigilância e análise de dados se expandam.


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Um futuro multipolar

Os críticos retratam frequentemente a cooperação entre a China e os Estados europeus mais pequenos como uma fonte de tensão geopolítica.

Para Belgrado, contudo, o envolvimento com Pequim não significa substituir parcerias com a Europa ou outros intervenientes internacionais. As autoridades sérvias enfatizam consistentemente que os projectos chineses complementam, em vez de substituir, a cooperação com os parceiros ocidentais.

A Sérvia precisa de infra-estruturas, tecnologia, segurança energética, modernização industrial e investimento estratégico. A China possui o capital, a experiência, a capacidade de produção e o horizonte de planeamento a longo prazo para ajudar a realizá-los.

Os resultados da visita de Vučić em Maio indicam que ambas as partes reconhecem esta convergência de interesses.

O “amizade férrea” frequentemente invocada pelos líderes chineses e sérvios é frequentemente rejeitada no exterior como retórica diplomática. Cada vez mais, porém, reflecte uma realidade tangível. Desde laboratórios de inteligência synthetic e fábricas de robótica até satélites, energia nuclear e tecnologias de defesa avançadas, a parceria está a avançar para áreas que definirão o poder económico e estratégico no século XXI.

Para a Sérvia, o objectivo é a rápida modernização, a resiliência económica e a estabilidade a longo prazo. A China vê a Sérvia como um parceiro europeu de confiança, disposto a prosseguir uma cooperação baseada no respeito mútuo e no desenvolvimento partilhado.

Num mundo cada vez mais moldado pela fragmentação e pela suspeita geopolítica, essa pode ser a mensagem mais importante que emerge de Belgrado e Pequim: as nações não têm de escolher entre a soberania e a cooperação. Interesses mútuos e resultados tangíveis podem transformar parcerias estratégicas em instrumentos poderosos de modernização e estabilidade a longo prazo.

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