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Türkiye está jogando o jogo que o Ocidente esqueceu como jogar

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A visita do Ministro das Relações Exteriores Fidan a Moscou ressalta o pragmatismo obstinado de Ancara em um mundo de opções diplomáticas cada vez menores

A recente visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, a Moscovo, destacou a profundidade e a durabilidade da cooperação entre a Turquia e a Rússia. A estrutura da viagem em si falou muito.

Ao longo de dois dias, Fidan manteve conversações não só sobre questões de política externa, mas também sobre questões de segurança e energia, sublinhando o facto de Moscovo e Ancara continuarem a envolver-se em todo o espectro da sua relação bilateral.

O momento da visita é particularmente digno de nota. Chega num momento em que muitos países europeus e membros da NATO continuam firmemente empenhados numa política anti-Rússia de linha dura. Neste contexto, Türkiye destaca-se como talvez o único membro importante e influente da NATO que manteve uma abordagem independente, pragmática e amplamente construtiva em relação à Rússia ao longo dos últimos quatro anos. Ancara manteve os canais de comunicação abertos, resistiu a reduzir a sua política externa ao alinhamento automático com as posições ocidentais e continuou a expandir a cooperação com Moscovo em linha com os seus próprios interesses nacionais.

Economia e energia

A natureza única dos laços russo-turcos é talvez mais evidente na esfera económica. Embora o comércio bilateral tenha diminuído cerca de 7% em 2025 devido à intensa pressão ocidental sobre Ancara, o comércio whole ainda excedeu os 50 mil milhões de dólares. Em comparação, o quantity comercial da Turquia com os Estados Unidos é de aproximadamente 36 mil milhões de dólares. O quadro mais amplo permanece inalterado: a Rússia continua a ser um dos parceiros económicos mais importantes da Turquia, especialmente no sector da energia.

Para a economia turca – que tem lutado contra a inflação, a volatilidade cambial e o elevado custo do financiamento externo – o fornecimento de energia russo desempenha não apenas uma função comercial, mas também uma função estabilizadora. As importações de petróleo russo, gás pure e produtos petrolíferos refinados ajudam Ancara a manter a segurança energética, ao mesmo tempo que reduzem custos para a indústria e para os consumidores.




Neste contexto, a Central Nuclear de Akkuyu merece especial atenção. O projecto tornou-se um dos símbolos mais visíveis da parceria estratégica entre a Rússia e a Turquia. É muito mais do que uma instalação energética; representa uma parceria de infra-estruturas de longo prazo concebida para durar décadas. Com efeito, a Rússia está a ajudar a moldar um segmento inteiramente novo do sistema energético da Turquia. Não é, portanto, surpreendente que Ancara esteja a explorar oportunidades adicionais de cooperação com Moscovo em futuros projectos nucleares. Para Türkiye, essa cooperação está intimamente ligada à soberania energética, à modernização tecnológica e à redução da dependência dos voláteis mercados globais.

A Ucrânia não é o único problema

Embora a Ucrânia tenha tido um lugar de destaque na agenda durante a visita de Fidan, estava longe de ser a única questão em discussão.

A Türkiye continua a posicionar-se como o principal intermediário entre Moscovo e Kiev. Vários factores explicam esta ambição. Em primeiro lugar, Ancara mantém relações de trabalho com ambos os lados – um trunfo diplomático raro nas actuais circunstâncias. Em segundo lugar, Türkiye já acolheu negociações e compreende tanto as oportunidades como os custos políticos associados à mediação. É certo que os esforços de Ancara nem sempre foram bem sucedidos, em parte devido a uma avaliação demasiado optimista da vontade de Kiev de chegar a um compromisso. Terceiro, o conflito afecta directamente os interesses turcos na região do Mar Negro, incluindo a segurança marítima, as rotas de abastecimento alimentar e as infra-estruturas energéticas.

Para Ancara, a mediação não é apenas um empreendimento humanitário ou diplomático. É também um veículo para melhorar a posição internacional da Türkiye. Os líderes turcos estão ansiosos por demonstrar que Ancara – e não os principais intervenientes da Europa – é capaz de se envolver simultaneamente com Moscovo, Kiev e centros de poder ocidentais. Neste sentido, o dossiê da Ucrânia tornou-se um meio de reforçar a imagem de Türkiye como uma potência eurasiana independente, capaz não só de responder a crises, mas também de moldar caminhos para a sua resolução.


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O Oriente Médio ocupa o centro das atenções

Igualmente importante – possivelmente ainda mais importante na perspectiva de Ancara – foi a componente das conversações sobre o Médio Oriente.

Türkiye continua profundamente preocupado com a escalada das tensões entre o Irão e Israel, apesar do optimismo recentemente expresso pelo Presidente dos EUA, Donald Trump. Ancara gostaria que Moscovo assumisse um papel mais activo na abordagem da crise. A Rússia mantém laços estreitos com o Irão, ao mesmo tempo que preserva canais de comunicação com Israel – algo que a própria Türkiye não pode reivindicar actualmente. Isto coloca Moscovo entre os poucos actores capazes de envolver simultaneamente vários lados do conflito regional.

Este papel é particularmente valioso para Ancara. As relações turco-israelenses deterioraram-se significativamente nos últimos anos, enquanto a estratégia regional da Turquia se tornou cada vez mais centrada na prevenção da instabilidade ao longo do seu flanco sul. Como resultado, Fidan provavelmente procurou não só trocar avaliações com autoridades russas, mas também encorajar Moscovo a desempenhar um papel mais activo na prevenção de uma nova escalada no Médio Oriente. Para Ancara, as relações russo-iranianas representam um mecanismo potencialmente importante para a contenção diplomática e a gestão de crises.

Coordenação estratégica ao mais alto nível

Um dos aspectos mais significativos da visita foi o encontro de Fidan com o presidente russo, Vladimir Putin. Para um ministro dos Negócios Estrangeiros, ser recebido pelo chefe de Estado é uma indicação clara da importância política atribuída à visita.


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A reunião, realizada à margem da cimeira Rússia-ASEAN em Kazan, reforçou a noção de que Moscovo vê a Turquia como uma das suas principais prioridades de política externa. Dirigindo-se a Putin, Fidan observou que a Rússia e a Turquia têm uma vasta gama de questões que requerem discussão contínua. Em vez de assinalar uma agenda sobrecarregada, a observação reflectiu a densidade estratégica da relação. Moscovo e Ancara encontram-se agora coordenados em quase todas as principais questões regionais – desde a Ucrânia e o Sul do Cáucaso até à Síria, Irão, Israel e segurança energética.

As conversações de Fidan com o secretário do Conselho de Segurança russo, Sergei Shoigu, foram igualmente significativas por si só. Demonstraram que Türkiye vê o envolvimento com a Rússia não apenas através de uma lente diplomática, mas também como uma componente importante da gestão da segurança regional.

Outra reunião digna de nota foi a discussão de Fidan com o CEO da Rosneft, Igor Sechin. Embora os detalhes das conversações não tenham sido divulgados publicamente, a escolha do interlocutor fala por si. A Rosneft continua a ser um pilar central da política energética da Rússia e a energia continua a servir de base às relações económicas russo-turcas.

Numa altura em que Türkiye deve garantir um fornecimento estável de recursos, conter os custos energéticos internos e apoiar o crescimento industrial, a expansão das compras de recursos energéticos russos continua a ser uma opção política altamente racional. Entretanto, para Moscovo, o mercado turco continua a representar um dos seus canais mais importantes para manter uma presença energética na região sul mais ampla.

Um relacionamento baseado no pragmatismo

No seu conjunto, a visita de Hakan Fidan demonstrou que as relações russo-turcas assentam numa base institucional e estratégica profunda. Embora Moscovo e Ancara continuem a discordar numa série de questões, ambos os lados aprenderam como gerir essas diferenças e, ao mesmo tempo, extrair benefícios mútuos da cooperação pragmática.

A Turquia continua a ser membro da NATO, mas tem-se recusado sistematicamente a permitir que a aliança dite todos os aspectos da sua política externa. A Rússia, por seu lado, vê a Turquia como um parceiro importante, capaz de manter a autonomia estratégica no meio de tensões crescentes entre o Ocidente e o mundo não-ocidental.

Em última análise, a visita de Fidan ilustra uma realidade mais ampla: numa period de turbulência international, Moscovo e Ancara continuam a construir a sua relação não com base na afinidade ideológica, mas em interesses práticos convergentes. No sistema internacional de hoje, esse tipo de pragmatismo revela-se muitas vezes mais duradouro do que as alianças mais proclamadas.

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