Depois de ver sua tentativa ousada de adquirir a Warner Bros. Discovery ir por água abaixo, a Netflix decidiu arregaçar as mangas e assumir o árduo trabalho de construir suas próprias franquias capazes de definir a cultura pop. A gigante do streaming estava disposta a fazer a maior aposta de sua história, na casa dos 72 bilhões de dólares, para encorpar seu catálogo com propriedades intelectuais de peso, como Harry Potter e Game of Thrones. Como o negócio não vingou, a vulnerabilidade da empresa diante dos estúdios tradicionais de Hollywood ficou evidente. Afinal, enquanto a Netflix conta com cerca de doze anos de produções originais, gigantes como Walt Disney, Universal Pictures e a própria Warner Bros. ostentam mais de um século de histórias e personagens já consolidados no imaginário do público.
Entrevistas recentes com líderes da indústria, agentes e dezesseis executivos e ex-executivos da empresa revelam o contraste estratégico no mercado atual. A tática da Netflix sempre foi oferecer um pouco de tudo para todos, atendendo a diversas audiências de forma simultânea. Esse modelo difere bastante daquele utilizado na criação de universos interligados com público cativo, a exemplo do que Taylor Sheridan fez com os spin-offs de “Yellowstone”. Contudo, segundo Bela Bajaria, diretora de conteúdo da plataforma, o objetivo contínuo agora é firmar parcerias com estúdios estabelecidos e injetar dinheiro em ideias originais que possam render frutos por anos. A meta é emplacar novos sucessos duradouros, seguindo a trilha de fenômenos como “Stranger Things”, “Wandinha” e “Bridgerton”.
Acertos, Tropeços e a Pressão do Mercado
Franquias representam minas de ouro para as empresas de entretenimento. Além de serem investimentos de menor risco a longo prazo, elas geram receitas secundárias astronômicas com a venda de produtos licenciados e experiências presenciais. No atual cenário de mídia, que é altamente fragmentado e repleto de distrações, personagens reconhecíveis são o principal ímã para reter a atenção do espectador. O sucesso dessa empreitada pode ser visto no trabalho prolífico de Shonda Rhimes, que adaptou os romances de Julia Quinn para a aclamada série “Bridgerton”. A produção não apenas caminha para sua quinta temporada, como já rendeu derivados e até um evento itinerante imersivo chamado “The Queen’s Ball”.
Outros êxitos endossam essa busca. “Stranger Things” se tornou um fenômeno absoluto, desdobrando-se em peças de teatro e uma infinidade de produtos. No cinema, o filme de ação “Resgate”, protagonizado por Chris Hemsworth, garantiu uma continuação e já tem seu terceiro capítulo em desenvolvimento. O mesmo movimento expansivo ocorre nos reality shows, com o longevo “Casamento às Cegas” ganhando versões locais no Brasil, Japão e França.
A estrada, no entanto, é esburacada. A tentativa de erguer grandes marcas esbarrou em fracassos caríssimos, como o acordo de 700 milhões de dólares pelos direitos do catálogo de Roald Dahl, criador de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”. Meia década após a aquisição, o investimento ainda não gerou nenhum megassucesso. A plataforma tentará reverter esse quadro este ano com “Golden Ticket”, um reality show inspirado no universo de Willy Wonka, onde os participantes enfrentarão desafios e tentações em um cenário que recria o famoso rio de chocolate.
Toda essa movimentação busca frear uma desaceleração incômoda. O engajamento da plataforma cresceu apenas 2% no segundo semestre de 2025, de acordo com a consultoria Owl & Co. Dados da LSEG apontam que o crescimento da receita também vem perdendo fôlego, com uma expectativa de alta de 13% para este ano, contra os 16% registrados em 2025, sendo que a publicidade responde por apenas 3% desse total. Como se não bastasse, a ascensão vertiginosa do YouTube representa uma ameaça competitiva constante.
A Estratégia Imediata: O Catálogo de Maio
Enquanto a batalha bilionária pelas franquias acontece nos bastidores, a estratégia de retenção de assinantes na linha de frente não para. Para manter a base engajada, a Netflix preparou uma verdadeira avalanche de estreias para o mês de maio. Entram no catálogo 10 séries, 15 novos filmes, cinco documentários e cinco obras voltadas para o público infantil. Reforçando o foco em conteúdo próprio abordado por Bela Bajaria, 21 desses títulos são produções originais da casa.
Novas Temporadas e Séries Inéditas
O mês começa intenso já no dia 4 de maio, com uma mistura de comédia, suspense e drama. O aguardado volume 2 de “Cara Gente Branca” promete levar os estudantes negros da prestigiada universidade ao limite, misturando dilemas românticos, ataques na internet e profundas mudanças estruturais no campus, sempre com aquele humor afiado e inteligente. Na mesma data, a primeira temporada de “Gran Hotel” traz a história do ousado Julio, que se infiltra como funcionário de uma hospedagem de luxo para investigar o misterioso desaparecimento de sua irmã.
Para os fãs de cenários apocalípticos, a estreia de “The Rain” acompanha a jornada perigosa de dois irmãos na Escandinávia. Após passarem seis anos escondidos em um bunker por conta de um vírus letal que dizimou quase toda a população, eles se juntam a um grupo de jovens sobreviventes em busca de civilização e sinais de vida. Já quem prefere entretenimento oriental pode conferir “O Jogo do Detetive”, um game show coreano cheio de celebridades e mistérios imprevisíveis. Ainda no dia 4, David Letterman retorna com seu formato revolucionário de entrevistas na série “O próximo convidado dispensa apresentação”. A convidada da vez é a brilhante atriz, roteirista e produtora Tina Fey, mente por trás de sucessos como 30 Rock e Unbreakable Kimmy Schmidt.
A programação segue forte ao longo do mês. No dia 11, a terceira temporada de “Bill Nye Saves the World” aprofunda debates sobre mudanças climáticas, evolução e o futuro da alimentação, contando com a presença de convidados ilustres como Arnold Schwarzenegger. Logo depois, no dia 13, a primeira temporada da série documental “Geek” explora como a cultura pop e a tecnologia deixaram de ser nicho nerd para dominar a internet globalmente.
A segunda quinzena traz adaptações e muita nostalgia. Em 22 de maio, estreia a versão live-action de “Mob Psycho 100”, baseada no premiado mangá sobre um jovem com poderes paranormais lutando contra uma organização maligna. No dia 25, a segunda temporada de “Brinquedos que Marcam Época” mergulha na mente dos criadores de ícones como Star Trek, LEGO, Transformers e Hello Kitty. Fechando o mês, em 30 de maio, Kimmy Schmidt continua sua hilária e complexa readaptação à Nova York do século 21 na quarta temporada de “Unbreakable Kimmy Schmidt”.
Reforço de Peso no Cinema em Casa
A lista de filmes para o feriado de 1º de maio chega abordando emoções à flor da pele. O tenso “Contando os Segundos” acompanha sete estranhos aguardando os resultados de seus testes de HIV em uma clínica, explorando o preço de cada escolha na vida. Simultaneamente, a produção “Duck Butter”, estrelada e produzida pelos irmãos Duplass, narra o experimento de duas mulheres que, exaustas de relacionamentos falhos, fazem um pacto de intimidade contínua por 24 horas, descobrindo que a prática é muito mais caótica que a teoria. O catálogo também ganha reforço nacional com “O Caminho das Nuvens”, longa estrelado por Wagner Moura e Cláudia Abreu. Baseado em fatos, o filme mostra a odisseia de uma família cruzando o Brasil de bicicleta, da Paraíba ao Rio de Janeiro, em busca de emprego. Fechando as estreias do dia primeiro, “Perfectos Desconocidos” coloca sete amigos em uma mesa de jantar durante um eclipse, onde um jogo arriscado de sinceridade absoluta foge do controle.
O dia 2 de maio é dominado por ficção, drama e humor ácido. O público poderá assistir a “Chappie”, que questiona a inteligência artificial quando um droide policial começa a pensar por conta própria em uma sociedade distópica. O suspense “Coração Sangrento” traz Jessica Biel no papel de uma professora de ioga tentando resgatar sua irmã biológica recém-descoberta da prostituição e de um relacionamento abusivo. A pegada muda completamente com “As Vozes”, estrelado por Ryan Reynolds, onde um homem mata a mulher por quem é atraído após um acidente bizarro e passa a buscar conselhos com seus animais de estimação falantes. Em tom mais dramático, “Um Momento Pode Mudar Tudo” junta Hilary Swank e Emmy Rossum em uma história transformadora sobre a relação entre uma pianista diagnosticada com uma doença degenerativa e sua jovem cuidadora.
Para completar a primeira leva de lançamentos, no dia 4 de maio chega o thriller de ficção científica “Anon”. A trama acompanha um detetive que investiga uma série de assassinatos aparentemente executados no mais absoluto anonimato, tudo isso dentro de um futuro opressor onde a tecnologia aniquilou completamente o conceito de privacidade.



